quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deus e a crueldade

Uma professora (idealista, prestável, atenciosa) uma vez disse, com uma resignação cansada, a um aluno (destroçado, incauto, e indiferente a uma vida escolar que ele abjurava) que Deus fora cruel ao dar uma enorme inteligência a alguém sem juízo e sem motivação.

Para ela, penso, não era uma abominação que uma inteligência elevada tivesse sido dada a alguém que não se servia das suas capacidades intelectuais; a premissa da sua crítica assentava no facto de este, sendo o seu recipiente e estando ciente delas, não ter nem a classe, nem a vontade, para as aproveitar em todo o seu esplendor e glória (tanto a nível pessoal como colectivo).

Para mim, tal crítica tem mais a ver com o carácter ocioso de Deus do que com a inconsciência do rapaz em questão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lyndsy's Eyes


Que a imaginação se eleve.

Solidão


Pray that your loneliness may spur you into finding something to live for, great enough to die for.

O meu é maior que o teu

Julgo ser um facto universal que o indivíduo comum, em consonância com uma natureza primitiva que milhões de anos de evolução apenas atenuou, preza, acima de tudo, e em conjunto com uma inescapável pulsão sexual, a liberdade. Encarado como um direito divino, inalienável, e um componente essencial, indiscutível, de uma sociedade contemporânea e civilizada, permite-nos viver, desde que essas experiências não ultrapassem um limite legal estabelecido a priori, de acordo com as nossas convicções, propósitos, necessidades, ou escolhas, e somos capazes de movimentar montanhas, de cometer verdadeiros actos escabrosos para preservar, para proteger essa condição. Uma pessoa perseguida, sentindo-se acossada, encurralada, foge, riposta, e até mata se for preciso; o instinto selvagem, violento, irracional vem ao de cima.

Com base neste pensamento, é, portanto, mais do que concebível que caso sejamos bruscamente abordados na rua, num dia chuvoso, por um estranho com mau aspecto, cujas motivações variam entre a mesquinhez e o egoísmo, que nos encosta à parede e nos pergunta, com desprezo, porque é que andamos por ali de T-Shirt se podemos ficar mais quentes com um casaco que ele ou os colegas andam a vender, lhe respondamos, seja por orgulho parvo, por despeito, por duvidar das suas intenções, ou, simplesmente, por não termos achado piada à violação do nosso espaço pessoal, vai para o caralho e mete-te na tua vida, mesmo que a interpelação faça sentido, possa ser útil, e impeça que nos constipemos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E o burro sou eu?!

Hoje de manhã estava eu a assistir, com um desinteresse sonolento, ao programa de opinião pública matinal da RTPN (Antena Aberta), dedicado à conquista do Campeonato Nacional de Futebol pelo FCP, quando um participante, provavelmente investido, consumido, por uma emoção azul e branca, que admito ser compreensível dada a natureza e as circunstâncias da vitória, declarou, com uma naturalidade análoga à de quem muda de roupa interior, que tinha retirado a fotografia da mulher e do filho que mantinha na mesa de cabeceira e a substituiu por uma do Pinto da Costa.

Num milénio em que a geração mais jovem portuguesa, que germina de uma sociedade pós-vinte e cinco de Abril em que a utopia económica e social não passou de uma anedota medíocre sem graça, é colectivamente, e frequentemente, acusada de não ter a mais pequena noção de sentido cívico, criticada pela sua superficialidade, censurada pela alarmante ausência de causas, e de se ter rendido a um hedonismo simplista e militante, talvez, mas só talvez, se deva olhar com muito cuidado para os valores, para o legado, para os falhanços que foram transmitidos aos seus filhos e netos, e que são perpetuados por uma classe política e jornalística que não tentam redimir um status quo socialmente zombificado, mas sim adaptar-se a ele.

É que nem todos somos farinha do mesmo saco, mas todos somos produtos do que nos rodeia.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Comprem um Fiat que também não é um mau carro

O estatuto da dívida pública portuguesa está a um mísero nível de ser considerada lixo pútrido e tóxico pelas agências de rating.

O PSD dispôs-se gentilmente a apoiar o Governo se este tiver que pedir a ajuda do FMI, para ter um escudo que o proteja da cascata de balas que atingirá os membros do seu hipotético governo quando tiverem que acatar as medidas de austeridade da senhora Merkel.

Na próxima segunda-feira iremos assistir, impávidos e serenos, a mais um aumento dos preços dos combustíveis porque os Porshes custam a pagar.

A toda poderosa ERC decidiu instaurar um processo contra a Sic Radical e o programa Especial de Natal do Rui Sinel de Cordes porque, passados três meses da sua exibição, se tomou conta de que se sentiu chocada com o seu conteúdo grosseiro ao ultrapassar os rígidos limites legais que delineiam a liberdade de expressão, crime que se tornou num autêntico atentado aos direitos humanos por ser um programa nitidamente impróprio de ser transmitido numa quadra em que devíamos dar as mãos ao Pai Natal e cantar o Kumbaya à volta de uma fogueira.

Agradecia sinceramente a todos estes senhores e senhoras que parassem com estas merdas e reencaminhassem as suas energias para matérias mais prementes que a vida está má.

Distopia